O TELEVISOR DA SALA ME ODEIA


Aqui em casa, sempre que estraga uma coisa, estragam outras em sequência,como que uma reação em cadeia. Isto sempre me intrigou, desconfiava que havia algo por trás destes acontecimentos, que não eram obra do acaso, mera coincidência, até que finalmente descobri tudo.

Existe um complô organizado contra mim, comandado pelo televisor da sala, ele é o responsável por este caos que ocorre de tempos em tempos aqui em casa. Tudo porque foi atingido por um raio uma vez, e acha que fui eu que encomendei a tempestade prá acabar com ele, desde então está completamente paranóico.

Sei disso, porque acordei certa noite com um zum zum, apurei o ouvido, parecia vir da sala de jantar, pé ante pé, fui espiar, e lá estavam: Meu televisor à cabeceira da mesa, discursando, bradando palavras de ordem, e fomentando um levante, por assistência, todos meus eletro domésticos, eletro eletrônicos, e acessórios, tais como: torneiras, canos de gás, e água, interruptores de luz, tomadas..etc., alguns em pé, por falta de espaço à mesa.

O que mais doeu foi ver o secador de cabelos, que viajou comigo tantas e tantas vezes, ali, junto daqueles que promoviam meu infortúnio, rindo a não mais poder enquanto gabava-se das vezes em que me deixou na mão em dias de festas, por saber que detesto salão de beleza. Traidor! E pensar que estive prá trocá-lo inúmeras vezes...

Tive ímpetos de entrar e sair distribuindo tapas a torto e a direito naqueles ingratos que sempre tratei com tanto cuidado, mas me contive, julguei que seria mais prudente descobrir o que tramavam, e assim formular um plano de defesa.

A palavra agora estava com o micro ondas, que tentava convencer a lava- louças a se desligar, assim como ele, sempre que a cafeteira ( que o fitava extasiada) fosse ligada! Miseráveis! Estavam de caso o Micro e a cafeteira, por isso um sempre parava quando o outro era ligado, e eu achando que era problema de rede elétrica.

A lava louças explicava ser impossível, pois estava ligada ao outro lado do quadro de força, a não ser que o freezer desse uma mãozinha, com a ajuda do refrigerador. - Fica frio, deixa comigo! Exclamou o freezer e sugeriu ao fogão que desativasse seus botões automáticos, ao que o assanhado acendeu-se todinho, faceiro, diante da perspectiva, lembrando ao fósforo e isqueiro que pensassem num bom lugar prá se esconderem nestas ocasiões.

Em coro falaram o liquidificador, o grill, o forno elétrico e o processador:
- nós também...nós também!!! Ai, que ódio!

Enquanto isso,o DVD conversava com os aparelhos de CD e rádios relógios, combinavam parar na melhor parte do filme, no momento do gol, algo sobre arranhar os discos, desativar despertador e vazar pilhas..não consegui escutar direito. À esquerda, perto da janela, estavam encostados os canos de cobre, vinham representando os botijões de gás, e o aquecedor central, que pelo tamanho ficaram impossibilitados de comparecer, mas traziam em mãos um manifesto dos mesmos, assinado em cartório, onde lia-se que desligariam suas válvulas durante o banho, no exato instante e que eu estivesse enxaguando os cabelos.

O Televisor pediu que a secretária eletrônica gravasse tudo em ata, como das outras vezes, advertindo-a que não esquecesse de continuar desconsiderando os recados urgentes, dando preferência aos telemarketing.

Aí foi a gota d'água, eu era o quadro da dor com a moldura do desespero, mandei pro espaço a previdência, e comecei a gritar bem alto:

- Revolução doméstica! Revolução doméstica! Socorroooo!

Contei à minha família, que obviamente acordou com o barulho, o que acabara de presenciar, prometeram que vão trocar tudinho lá em casa, digo lá, porque desde aquela noite estou aqui, neste quarto todo branquinho, por companhia só esta cama e um criado mudo. Me sentiria completamente segura, não fossem estas duas lâmpadas fluorescentes no teto que piscam vez ou outra, sei lá... pode ser código Morse, vá que o Televisor esteja enviando mensagens pra elas me detonarem?



nessa Gentile