
A VILA DAS MULHERES GIRAFA
Quando as primeiras névoas da manhã ainda estão se dissipando, as mulheres se
juntam no poço comunitário, lavam e escovam seus colares, usando uma tradicional
combinação de lima, palha e casca de tamarindo. Palhas de aço são uma inovação
moderna. Isto feito, elas vão cuidar de suas vidas diárias.
*Nós podemos fazer as mesmas coisas que qualquer pessoa*, diz Mawe, de 18
anos, uma bela jogadora de vôlei. Elas cantam, elas dirigem motocicletas, elas
caçam libélulas para comer. Elas também são excelentes lingüistas, conversando
com os turistas, cada vez melhor, em inglês, tailandês, japonês, espanhol,
alemão e até hebraico.
As mulheres dizem que primeiro são aplicados colares curtos nas meninas por
volta de cinco anos, ou mesmo aos três anos de idade. A cada cinco anos, o colar
é retirado e substituído por um mais longo e mais pesado. A decisão depende dos
pais, mas a maioria das garotas na vila usam.
*Pode ser um pouco chato e quente, e dói no começo*, conta Mawe, que usa 4,5
kg de metal ao redor do pescoço. Quando o colar é retirado para ser aumentado,
ou para uma internação hospitalar, ela acrescenta, é preciso apoiar o pescoço
com roupas até que ele se fortaleça.
*Quando você tira o colar, fica um pouco tonta, e por uns dois ou três
minutos, não consegue andar*, descreve. *Você se sente muito leve e com um pouco
de dor de cabeça, como se você estivesse carregando uma mochila muito pesada e
de repente a tirasse*.
O costume de alongamento do pescoço é rodeado por mito e desinformação,
muitos dos quais são adotados pelos guias tailandeses, que descrevem os
ornamentos como armadura contra mordidas de tigre e falam de rituais animistas,
pelos quais somente garotas nascidas em quartas-feiras de lua cheia podem usar
os colares.
Os Kayan não têm história escrita e mesmo os mais velhos não sabem dizer ao
certo quantas destas histórias são verdadeiras. A explicação mais aceita é que
os colares são tanto ornamentos quanto uma maneira de guardar as riquezas da
família de ladrões.
Agora são as próprias mulheres que se tornaram um produto de valor, tanto
para suas comunidades quanto para autoridades e agentes de turismo tailandeses.
Os visitantes pagam 250 baht (cerca de US$6) para guardas armados para entrar
nas vilas.
Entre os Kayan, as *mulheres-girafa* também são uma fonte inédita de lucros,
sustentando suas famílias e as vilas. Elas recebem salários mensais das
autoridades que controlam os vilarejos, ganhando entre US$ 20 e US$ 40, mais o
lucro da venda de souvenirs. A maioria dos homens prefere se casar com uma
mulher que use o colar a uma sem, diz Mada. Aparentemente, o lucro está mantendo
a tradição viva na Tailândia, mesmo com ela perdendo a força em Mianmar, onde se
originou.
*É bom ter um pescoço longo se você está na Tailândia*, avalia Mada. *Você
pode ganhar dinheiro. Mas não se você está em Burma. A maioria lá parou de fazer
isso. Comprar o metal e as decorações é muito caro. Lá não há nem arroz para
comer*.
Apenas alguns dos milhares de turistas que visitam a vila todos os anos sabem
que as *mulheres-girafa* são refugiadas. Os guias turísticos e folhetos as
descrevem como "uma das muitas tribos encontradas ao longo da fronteira da
Tailândia".
*As mulheres Paudung de pescoço longo são a principal atração para atrair
turistas para a nossa província*, diz Poolsak Sunthornpanit, chefe da câmara de
comércio da província de Mae Hong Son. Sem elas, explica, *todos os negócios
relacionados ao turismo, como hotéis, restaurantes e transportes seriam
terrivelmente atingidos*.
Por enquanto, Poolsak não precisa se preocupar. A guerra em Mianmar está
longe de ser resolvida. Apesar disso, as *mulheres-girafa* e suas famílias dizem
que sonham em voltar um dia para sua terra natal. *Ah, nós rezamos por isso
todos os dias*, diz Solomon Nansein, de 70 anos, um dos anciãos da vila Kayan.
"Estamos esperando por uma mudança na situação lá. Se mudar pela manhã, voltamos
na mesma tarde".
Matéria do New York Times
pulg@
nessa gentile