ELA
Ela. Sabe secretamente o que eu sei também em segredo: nós fomos feitos um para o outro
e construiríamos juntos o único sentido para a vida.
Ela passa e confessa no olhar a nossa conspiração de felicidade.
Ela sabe como eu sei que esses instantes vazios da vida estariam sempre repletos
de ventura; mesmo os que se constituíssem apenas em silêncio se tivéssemos coragem.
Ela. Passa e deixa que seu perfume, o mesmo dos caminhos floridos que percorreríamos sempre
que desconfiássemos que íamos ficar tristes.
Ela passa e diz no olhar que seu pensamento é fixo em mim durante todas as horas do dia, até
o instante do adormecer, porque tem certeza que durante toda a minha vigília o meu
pensamento não se afasta nunca dela e sonha com a possibilidae remota e quase impossível
do nosso encontro.
Ela. Tem conciência do imenso desperdício da nossa distância inexplicável e cultiva como eu
o passatempo de enumerar todos os obstáculos intransponíveis que nos separam, sabendo-os
até úteis para que este amor se perenize pela impossibilidade.
Uma forma de amar, talvez a mais bela
forma de amar, é o amor impossível.
Ela. Sempre se mostrou sensível às minhas dores e nunca deixou que transparecesse as dores dela,
sabemos que todas desapareceriam se simplesmente decidíssemos virar a mesa e apostar em nós dois,
até mesmo porque nada mais importa que não seja nós.
Ela. Passam os dias e resistem em passar as noites e ela permanece inquebrantável, com um pensamento
e um destino só, atados ao meu pelo mistério do pressentimento.
Ela sabe como eu que a única forma de tornar digna e gloriosa a vida é sonhar com esta hipótese
animada de esperança.
Ela sabe como eu que o mundo só teve até agora uma utilidade: a de que nós dois percebêssemos
que todos os valores que cercam a vida só se tornariam reais e prósperos se fossem afirmados pela
permanência da nossa proximidade.
Ali vai ela. Impossível mas verdadeira.
Aqui fico eu, irresolvido mas côncio da radical solução.
ELA
Paulo Sant'ana