Chanel

"Vista-se bem e notarão você, vista-se mal e notarão a roupa".

Coco Chanel

Até hoje, Chanel é sinônimo de bem-vestir e de boa aparência, dos pés à cabeça - ou ao cabelo, se preferir. Mas a senhorita que emprestou esse nome ao mundo, revolucionando a moda, chamava-se Gabrielle Chanel (foto à esquerda). Ela aboliu os vestidos armados em favor de um jeito de vestir prático e confortável, criou roupas e acessórios que hoje encontram-se expostos em museus e montou um império equivalente a 4,5 bilhões de dólares, em valores de 1990.

    Mademoiselle, como ficou conhecida ao longo de 88 anos de uma agitada existência, era uma pessoa dinâmica e empreendedora, com algumas tempestades de cólera, quando se sentia ameaçada. Coco era muito ousada, apesar de não gostar de extravagâncias. Ela sabia a dose certa de novidade para colocar em cada obra.

    Channel nasceu em Saumur, na França. Era de origem pobre; sua mãe morreu quando ela tinha doze anos e seu pai deixou ela e as irmãs em um orfanato. Aos 18 anos, Gabrielle foi transferida para um pensionato e, aos 20, começou a trabalhar em um armarinho na cidade de Moulins, centro da França. Foi nessa cidade que começou sua carreira como cantora, cantando as duas únicas músicas que conhecia bem no La Rotonde, um café local. As canções Ko-ko-ki-ko e Qui qu'a vu Coco (Quem foi que viu Coco) tinham refrões muito parecidos e, por causa deles, os galantes militares do 10.° Regimento de Cavalaria, assíduos freqüentadores desses concertos, apelidaram a moça de Coco — depois disso, ela nunca mais foi chamada de Gabrielle.

   Um desses militares, Etienne Balsan, filho de prósperos industriais do setor têxtil, que, quando viu a corista, apaixonou-se por ela. Foi nessa época que começou a ter dinheiro e freqüentar lugares requintados. Ela acompanhava Etienne ao hipódromo usando um despojado chapéu de palha, preso com um alfinete na negra cabeleira lisa. Aos vestidos sóbrios, acrescentava acessórios exóticos, como gravatas e paletós, que ia buscar no armário do companheiro. Como Etienne era um rapaz magro, suas roupas geralmente serviam no corpo miúdo de Coco que adorava adaptar trajes masculinos e odiava as rendas e babados que as mulheres usavam. Em pouco tempo, artistas, esportistas e escritoras passaram a procurar Coco, pedindo dicas, e muitas vezes disputavam os seus famosos chapeuzinhos de palha.

   Já em 1909, Coco dizia: “As mulheres, às vezes, vinham ao ateliê só para me ver de perto", contou anos mais tarde. "Eu era um bicho curioso, com um chapéu de palha sobre a cabeça e uma cabeça sobre os ombros". Os canotiers, nome desses chapeuzinhos, terminaram ilustrando uma página inteira da influente revista Les Modes.

   Em 1911, a modista abandonou o pequeno estúdio e abriu sua primeira loja, mais uma vez com ajuda financeira de seu namorado Boy, no número 31 da rue Cambon, paralela ao famosíssimo Faubourg Saint Honoré, a alameda parisiense das grandes griffes. Ainda hoje, o costureiro Karl Lagerfeld assina as criações da marca Chanel no mesmo endereço. Em uma das muitas entrevistas que concedeu, Coco explicou o sucesso de suas lojas da seguinte maneira: "Minha fortuna foi construída em cima daquela malha velha que eu vesti porque fazia frio em Deauville".

   Os espartilhos comprimiam as cinturas das mulheres e os vestidos arrastavam-se na areia. "Uma moda totalmente inadequada", criticava Coco. Na loja, ela vendia blusas com golas rulês, inspiradas nas roupas dos marinheiros, feitas de malha e de tricô — antes consideradas pouco nobres. Como repetiria depois, criando os tailleurs de tecido tweed, ela transformava a indumentária masculina em clássicos da moda feminina.

   Em 1916, Coco já chefiava um exército de trezentos funcionários. Além disso, Coco continuou a inventar moda fora do guarda-roupa, pois cortou os cabelos na altura do queixo, como apenas as atrizes tinham ousado fazer; foi a primeira freqüentadora da alta sociedade a exibir a pele bronzeada pelo sol. Finalmente, diminuiu o comprimento das saias, que passaram a mostrar os tornozelos.

    Dos tempos de guerra até 1953, as lojas Chanel permaneceram com portas cerradas, por decisão da proprietária. Só aos 70 anos (foto à direita), ela reinaugurou seu ateliê, sem precisar de esforço para conquistar clientela. Ali, trabalhou diariamente oito horas, durante dezesseis anos, inclusive aos sábados.

    Coco Chanel morreu em 10 de janeiro de 1971, em um domingo, dia da semana que ela dizia odiar: "Só aos domingos eu não invento nada" justificava.

O Chanel N.° 5

Para comemorar seus 40 anos, em 1923, Coco lançou aquele que seria o perfume mais famoso de sua griffe, o Chanel N.° 5. O químico Ernest Beaux usou nada menos que oitenta substâncias para satisfazer as exigências de Chanel e acabou apresentando-lhe oito amostras diferentes. A escolhida por Mademoiselle foi a número 5 — daí o nome que, junto com o frasco de linhas simples, revolucionou a indústria de perfumaria.

   Numa entrevista, em 1955, perguntaram a Marilyn Monroe o que ela usava para dormir: "Apenas três gotas de Chanel N.° 5". Com a resposta, as vendas do perfume dobraram, fazendo Coco embolsar 162.000 dólares naquele ano.

O pretinho básico

   Em 1925, surgia outra marca de Chanel: o tradicional vestidinho preto de crepe com mangas justas e compridas, que ela aconselhava todas mulheres a ter no armário, como garantia de elegância. As clientes estavam acostumadas a comprar peças quase exclusivas e, muitas delas, hesitaram em levar para casa o modelo simples, aparentemente fácil de ser reproduzido. A edição americana da revista Vogue tratou de tranqüilizá-las, comparando o "pretinho" de Chanel com outro símbolo de status da época: o Ford. "Alguém não compraria um carro sob o pretexto de que ele não se diferencia de outro da mesma marca? Ao contrário. Essa semelhança garante sua qualidade", saiu publicado.

O tailleur

    O segundo homem que Coco amou foi Hugh Richard Arthur Grosvenor, duque de Westminster e, sem dúvida, a maior fortuna da Inglaterra. A estilista se inspirou em seus trajes para criar o tailleur, o blazer feminino usado com saia, sobre o qual suas manequins carregavam colares de pérolas falsas e outras bijuterias (enquanto isso, nas ruas, as mulheres não arriscavam comparecer a um compromisso elegante sem usar enfeites de pedras preciosas). "Deve-se misturar o falso com o verdadeiro", sentenciou Coco Chanel. "Pedir a alguém que só use jóias verdadeiras é como pedir que se cubra apenas com flores de verdade, no lugar de vestir uma roupa estampada florida."

Estilo chanel

Chanel passou a ser um estilo, entendido por todo mundo que trabalha com moda, no mundo todo: o "pretinho" no armário infalível - que tem caimento ideal numa festa, num passeio com o namorado ou naquela reunião de negócios -; o tailleur, peça básica das que trabalham; o corte chanel - fios retos, que não ultrapassam o limite do queixo-; o comprimento chanel — um vestido ou saia que se alongue o suficiente para cobrir os joelhos; o sapato chanel - aquele escarpin bicolor, com o bico em um tom diferente do resto - e a clássica bolsa chanel - que as mulheres penduram no ombro, com uma corrente dourada de alça.

A reabertura das lojas e o sucesso que dura

Em 25 de janeiro de 1971, as pessoas acotovelaram-se para ver a última coleção desenhada por Coco. Mas, a griffe só voltou à glória nove anos depois da reabertura, em 1983, com o alemão Karl Lagerfeld (autor dos desenhos à esquerda), o menino prodígio de outra maison francesa a Chloé. Na época de sua contratação existiam 19 lojas Chanel em todo o mundo. Em 1990, já eram 40. Lagerfeld manteve os colares de pérolas falsas, os vestidos pretos, os tailleurs e a filosofia de que é possível ser irreverente na mais completa elegância.



Fonte: Marista Online